Rabiscos que encantam
Eduardo Lima
| 03-02-2026

· Equipe de Fotografia
Se você já passou por uma galeria de arte moderna e ficou diante de uma pintura abstrata, coçando a cabeça, é bem provável que tenha se perguntado: "por que isso parece algo que uma criança poderia ter pintado?"
Seja uma tela cheia de respingos aleatórios, uma explosão caótica de formas ou figuras estranhas que parecem fora do lugar.
Muitas obras de arte contemporânea provocam a mesma questão isso é realmente arte ou apenas "um rabisco de criança"?
À primeira vista, algumas obras modernas podem parecer incompreensíveis ou excessivamente simples, levando muitos a se perguntar se não seriam apenas produto de uma imaginação livre e caprichosa. Mas, na realidade, aquilo que parece "infantil" ou "aleatório" muitas vezes carrega um significado mais profundo e intencional.
Então, por que algumas obras modernas parecem ter sido feitas por uma criança?
Vamos explorar as raízes desse fenômeno e entender por que essas obras aparentemente simples se tornaram parte fundamental do mundo da arte.
Quebrando o molde: a despedida da arte moderna da tradição
Para entender por que algumas obras de arte moderna se parecem com "rabiscos de criança", precisamos primeiro observar as grandes mudanças no pensamento artístico que ocorreram no início do século XX. O surgimento do modernismo representou uma ruptura com as expectativas tradicionais da arte.
Os artistas não estavam mais presos à necessidade de realismo perfeito, paisagens detalhadas ou retratos idealizados. O foco passou a ser a expressão, a abstração e a exploração de novas maneiras de representar a realidade.
Os artistas começaram a experimentar formas e técnicas muito distantes das tradições clássicas. Cubismo, surrealismo e expressionismo abstrato surgiram como novas formas de representação artística, cada uma oferecendo uma perspectiva diferente de como a arte poderia refletir a experiência humana.
À medida que os artistas se afastavam das normas estabelecidas, a questão do que constitui "arte" tornou-se mais fluida.
A natureza simples e desestruturada de algumas dessas obras, com pinceladas ásperas e formas distorcidas, permitiu aos artistas expressar emoções, ideias e críticas à sociedade de maneiras nunca antes tentadas.
A Influência da simplicidade infantil: abraçando o primitivo
Uma das principais razões pelas quais a arte moderna frequentemente se assemelha a desenhos infantis é que muitos artistas deliberadamente adotaram a pureza e a espontaneidade encontradas na arte das crianças.
Movimentos do início do século XX, como o surrealismo e o expressionismo abstrato, buscavam acessar o subconsciente, e a arte infantil, com sua expressão sem inibições e associações livres, tornou-se uma fonte importante de inspiração.
Artistas como Pablo Picasso e Jean Dubuffet olharam para os desenhos infantis em busca de simplicidade crua e impacto emocional.
Picasso certa vez disse: "levei quatro anos para pintar como Rafael, mas uma vida inteira para pintar como uma criança."
O objetivo não era imitar o trabalho das crianças, mas abraçar sua criatividade sem restrições, muitas vezes vista como mais autêntica e menos limitada pelas expectativas sociais.
Ao rejeitar as formas polidas e cuidadosamente construídas da arte tradicional, esses artistas buscavam retornar a um modo de criação mais instintivo e não refinado. Além disso, a influência da arte africana, oceânica e indígena teve um efeito profundo nos artistas modernos.
Essas formas de arte, muitas vezes mais abstratas e simbólicas, eram valorizadas por sua objetividade e conexão com a expressão humana primária. Muitos artistas modernos viam essas obras como mais verdadeiras e honestas do que as pinturas europeias altamente detalhadas e realistas que dominaram por séculos.
Expressionismo abstrato: arte sem regras
O exemplo mais notável da abstração "infantil" vem do movimento expressionista abstrato, especialmente com artistas como Jackson Pollock, Mark Rothko e Willem de Kooning.
As icônicas pinturas por gotejamento de Jackson, nas quais a tinta é derramada ou respingada sobre a tela, podem parecer aleatórias à primeira vista, mas representam uma forma intencional e controlada de caos.
Jackson descrevia sua técnica como uma maneira de acessar o subconsciente, conectando-se com emoções e energias que não podem ser expressas por técnicas artísticas convencionais.
O método de Jackson não buscava criar uma imagem organizada, mas sim expressar o ato de pintar em si — uma ideia inspirada na espontaneidade e liberdade frequentemente vistas na arte infantil. Suas famosas obras, como
No. 5, 1948, evocam a energia do movimento e da emoção, muito diferente das obras figurativas estruturadas de gerações passadas. Nesse sentido, a aparência "infantil" de algumas obras expressionistas abstratas é uma escolha deliberada de rejeitar a arte representacional em favor da autenticidade emocional.
A intenção não é criar um objeto ou figura reconhecível, mas transmitir uma experiência, um sentimento ou um estado de espírito.
Arte conceitual: a ideia acima da execução
Outro aspecto da arte moderna que pode gerar confusão é o surgimento da arte conceitual, em que a ideia por trás da obra se sobrepõe à execução visual. Esse movimento, defendido por artistas como Sol LeWitt e Marcel Duchamp, foca no conceito em vez da habilidade técnica envolvida na criação da peça.
Fountain, de Duchamp, um objeto de cerâmica de banheiro assinado com um pseudônimo, desafiou a própria noção do que poderia ser considerado arte.
Nesse contexto, a simplicidade de uma obra — como uma tela branca ou um desenho aparentemente "infantil" — torna-se um exercício intelectual, em vez de um esforço artístico tradicional. A obra desafia o espectador a se engajar com a ideia por trás dela, forçando-o a questionar o papel do artista e o significado da arte em si.
A simplicidade "infantil" de algumas peças de arte conceitual muitas vezes esconde as profundas questões filosóficas que propõem. De certa forma, é uma rejeição da ideia de que a arte deve ser sempre complexa ou meticulosamente trabalhada, valorizando pensamento, conceito e expressão pessoal.
Por que isso importa? A liberdade da interpretação
Embora seja tentador descartar a arte moderna que se assemelha a rabiscos infantis, fazer isso significa perder um ponto essencial. Essas obras não tratam apenas do produto final; elas valorizam o processo, a liberdade e a emoção crua que despertam.
A transição da arte moderna para a abstração, simplicidade e conceitualismo convida o espectador a se envolver de forma mais profunda, questionando suas ideias preconcebidas sobre como a arte deve ser. Na verdade, a qualidade "infantil" dessas obras pode abrir uma compreensão mais inclusiva da arte.
Ela permite que qualquer pessoa, independentemente de educação ou experiência, aprecie a obra sem precisar de conhecimento técnico sobre formas artísticas tradicionais. A arte passa a ser algo que se experimenta, e não apenas se observa.
Conclusão: abraçando a simplicidade como gênio artístico
Então, por que algumas obras modernas parecem rabiscos de criança? Porque, de muitas formas, elas representam um retorno deliberado a uma expressão mais primária e não filtrada.
Longe de serem aleatórias ou sem técnica, essas obras representam uma rejeição das normas tradicionais, focando em emoções, ideias e na beleza crua da criatividade. O que parece uma simplicidade infantil é, muitas vezes, um comentário profundo sobre a complexidade da natureza humana e do processo artístico.
No mundo da arte moderna, a simplicidade não é uma limitação; é uma ferramenta poderosa para abrir novas formas de ver e entender o mundo ao nosso redor.