Arte infantil
Mariana Silva
Mariana Silva
| 11-02-2026
Equipe de Fotografia · Equipe de Fotografia
Arte infantil
Sabe aquele desenho de giz de cera que seu filho colou na geladeira na semana passada? Aquele com o sol torto e a mancha verde que ele jura ser um cachorro?
E se eu dissesse que algo muito parecido — talvez até mais simples — já foi vendido por mais de quatro mil dólares? Não como piada. Não como provocação. Mas como arte.
Tudo começou com um rabisco feito após a escola por uma criança de seis anos: uma tartaruga, desenhada com um marcador azul grosso, com quatro pernas trêmulas, um casco que parecia um ovo mexido e olhos mais surpresos do que reptilianos. O responsável pela criança, meio divertido, tirou uma foto e compartilhou em um fórum online de artistas amadores. Uma semana depois, um dono de galeria entrou em contato. Não para elogiar a criação.
Não para encomendar nada. Mas para perguntar: posso expor isso? E vender?
E assim, “Untitled (Turtle, Age 6)” foi emoldurado em preto fosco, pendurado sob uma iluminação suave de galeria e descrito como “uma profunda meditação sobre forma, inocência e a desconstrução da ordem natural”. Foi vendido em poucas horas.
Agora, antes que você revire os olhos ou ria alto demais, vamos parar um pouco. Esta não é apenas uma história sobre o absurdo no mundo da arte — embora, sim, isso também seja real.
É sobre algo mais profundo: como atribuímos valor, ao que realmente reagimos quando chamamos algo de “arte” e se a criatividade perde algo quando é polida, treinada e filtrada por anos de técnica.

O que eles estavam realmente comprando?

O comprador não estava zombando. Era um profissional em meio de carreira, alguém que coleciona trabalhos emergentes e tem um apreço especial por “expressão não mediada”. Quando perguntado por que pagou tanto por um desenho infantil, ele não mencionou ironia nem investimento.
Em vez disso, disse: “parecia honesto. Como se não tivesse sido editado pelo medo ou pela expectativa”.
Essa é a verdade silenciosa que ninguém gosta de admitir: grande parte do que elogiamos como criatividade profissional é moldada por regras — o que vende, o que se encaixa, o que parece “sério”. Aprendemos a suavizar cores, endireitar linhas, justificar cada escolha. Uma criança não faz isso. Ela desenha uma tartaruga porque viu uma no parque, ou porque a palavra soa divertida, ou porque verde parece a cor certa para um casco — mesmo que não seja.
Não há dúvida excessiva. Nenhum grupo de foco na cabeça. Apenas impulso direto, visão sem filtros, criação crua.
E talvez seja isso que o comprador estava pagando — não pela tartaruga, mas pela liberdade por trás dela.

A distância entre criar e significar

Aqui é onde a coisa fica complicada. A criança não pretendia dizer nada profundo. Não estava comentando sobre degradação ambiental nem sobre o ritmo lento da vida moderna (embora o comunicado da galeria tenha feito isso). Ela só queria desenhar algo que se movia.
Mas, ao entrar no mundo da arte, camadas de significado foram sendo adicionadas como verniz. Críticos chamaram a obra de “pós-representacional”. Blogs debateram sua “tensão entre fragilidade e persistência”. Um episódio de podcast explorou seu “simbolismo existencial do casco”.
Nada disso a criança saberia explicar. E nada disso importava para ela. Para a criança, era apenas mais um desenho — talvez nem o melhor. Na semana anterior, ela havia feito dragões que soltavam fogo.
Então quem decide quando algo “significa” alguma coisa? Quem cria? Quem observa? O mercado?
Essa lacuna — entre intenção e interpretação — é onde a arte vive. Mas é também onde a confusão prospera. Muitas vezes supomos que o valor vem da habilidade, de anos de estudo, do domínio técnico.
Mas, às vezes, o trabalho mais poderoso vem do oposto: de não conhecer as regras o suficiente para segui-las.
Arte infantil

O que isso significa para a forma como criamos

Você não precisa vender os desenhos do seu filho para entender isso. Mas pode emprestar a mentalidade dele.
Pense nos seus próprios bloqueios criativos. Aquele projeto que você adia porque não parece “bom o bastante”? Aquela ideia que você descartou por parecer boba, confusa ou mal acabada? E se você a tratasse como uma criança trataria — só para ver o que acontece?
Experimente isto:
1. programe um cronômetro de 10 minutos e crie algo sem nenhuma preocupação com qualidade. Use giz de cera, canetinhas, áudios, argila — qualquer coisa que seja tátil e imediata;
2. não edite enquanto cria. Nada de riscar, apagar ou pausar para julgar;
3. quando o tempo acabar, afaste-se. Não pergunte “isso é bom?”. Pergunte “no que isso quer se transformar”?
Você provavelmente vai perceber que algo inesperado surge — não porque seja perfeito, mas porque está vivo. Como aquela tartaruga, há energia ali. Imperfeita, sim. Nada polida, com certeza. Mas livre.

A rebelião silenciosa do fazer simples

Vivemos em um mundo que recompensa a complexidade. Portfólios maiores. Currículos mais afiados. Mais seguidores. Mais técnicas. Mas a criatividade nem sempre cresce nesse terreno. Às vezes, ela brota nas frestas — onde as regras não alcançam, onde não há pressão para performar.
A galeria não comprou a tartaruga porque ela era tecnicamente impressionante.
Comprou porque ela lembrava as pessoas de algo que haviam perdido: a alegria de criar apenas por criar.
Você não precisa de moldura nem de etiqueta de preço para recuperar isso. Só precisa se permitir começar — mal feito, com coragem, sem pedir permissão.
Então, da próxima vez que você hesitar antes de colocar a caneta no papel, pergunte a si mesmo: o que a criança com o marcador azul faria?
Ela provavelmente começaria a desenhar. E talvez, só talvez, isso seja a coisa mais radical que qualquer um de nós pode fazer.