Cães e saúde mental!
Matheus Pereira
Matheus Pereira
| 21-04-2026
Equipe de Astronomia · Equipe de Astronomia
Cães e saúde mental!
Há muito tempo, o cão é visto como o melhor amigo do ser humano. Essa ideia costuma se apoiar no comportamento canino: lealdade, afeto e desejo de agradar.
Donos de pets, como Sharon Reid, de Grand Rapids, Michigan, EUA, relatam ter vivido essa conexão de forma direta.
“Depois que meu marido faleceu, meu cão foi a presença mais constante e confiável na minha vida para me ajudar durante os meses difíceis que vieram depois.”
Entre os benefícios de saúde mais conhecidos e aceitos associados aos animais de estimação está a capacidade de ajudar no enfrentamento do estresse, estimular mais empatia e compaixão, além de sua companhia “poder proteger as pessoas da devastação da solidão”, afirma Alan Beck, professor de ecologia animal e diretor do Center for the Human-Animal Bond da Purdue University, em Indiana, EUA.
Esses efeitos aparecem em uma pesquisa recente da Associação Americana de Psiquiatria, que apontou que 86% dos tutores acreditam que seus animais têm impacto positivo na saúde mental, e cerca de 90% os consideram membros da família.
No entanto, até que ponto os animais realmente contribuem para a saúde mental ainda é motivo de debate entre pesquisadores.
Embora muitos especialistas reconheçam benefícios bem estabelecidos, outros afirmam que parte dessas crenças não é tão fortemente sustentada por evidências científicas.
Ainda assim, há amplo consenso de que o contato frequente com outro ser vivo traz ganhos importantes para a saúde mental.
“Ter um confidente que não julga pode ajudar a reduzir os efeitos do estresse sobre a saúde física e psicológica”, explica Nancy Gee, professora de psiquiatria e diretora do Center for Human-Animal Interaction da Virginia Commonwealth University, EUA.
Os animais também podem influenciar o desempenho acadêmico. “Em dois estudos diferentes (um com crianças de seis a oito anos e outro com universitários), a interação com um cão melhorou as funções executivas, que são processos que nos ajudam a planejar e manter o foco na tarefa”, destaca Gee.

Melhores resultados para idosos e pessoas com problemas de saúde

Animais de estimação também têm mostrado benefícios para diferentes grupos, incluindo pessoas com condições específicas de saúde mental.
Um estudo publicado pela Associação Americana de Psicologia, no Bulletin of Human-Animal Interaction da Society of Counseling Psychology, mostrou que cães de terapia ajudam a reduzir sintomas como desatenção e dificuldades sociais ligadas ao TDAH em crianças.
Outra pesquisa indica que acariciar um animal pode aliviar a ansiedade, e estudos adicionais mostram que pets podem aumentar a socialização de crianças com autismo.
Uma pesquisa de 2022 indica também benefícios para vítimas de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).
“Nosso estudo mostrou que ter um cão de serviço para TEPT não só está associado a menos sintomas em veteranos, como também a menos raiva, menos isolamento social e maior resiliência ao estresse”, explica Kerri Rodriguez, professora assistente de interação humano-animal da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade do Arizona, EUA.
Também há destaque para os idosos. “O conforto proporcionado por animais de estimação é especialmente importante para quem tem menos vínculos próximos com amigos e família, como pessoas mais velhas”, afirma Rodriguez.
Ela ressalta que passear com o cão pode ajudar idosos a interagir com outras pessoas em parques ou na vizinhança. “Essas pequenas interações sociais podem ser muito importantes para quem sofre com isolamento, além de oferecer companhia essencial em casa.”
Cães e saúde mental!

Quando os benefícios de ter um animal de estimação são exagerados

Apesar dos benefícios reconhecidos, especialistas afirmam que, em alguns casos, esses efeitos são superestimados. “As evidências científicas sobre os benefícios de saúde dos animais de estimação são mais variadas do que muitas pessoas imaginam”, observa Megan Mueller, professora associada de interação humano-animal na Cummings School of Veterinary Medicine da Tufts University, EUA.
Por exemplo, Hal Herzog, professor emérito de psicologia da Western Carolina University, EUA, afirma que não há evidências de que, durante a pandemia, pessoas com pets tenham se saído melhor do que aquelas sem animais, como muitos acreditavam. Ele também aponta que nenhuma pesquisa mostrou que “os tutores de animais, em geral, são mais felizes do que os não tutores”.
Um dos pontos mais frequentemente exagerados é a relação entre animais de estimação e depressão clínica. Ao analisar 30 estudos revisados por pares sobre essa relação, Herzog concluiu que 18 não encontraram “nenhuma diferença” nas taxas de depressão entre quem tem e quem não tem pets. “Ter um animal de estimação não é um indicador confiável de sintomas depressivos”, avalia Mueller.

Combinando um animal de estimação com o dono certo

Apesar disso, pesquisadores concordam em um ponto essencial: quando alguém deseja ter um animal, é fundamental que haja uma boa combinação entre tutor e pet. Segundo Mueller, os benefícios dependem mais da qualidade da relação do que simplesmente do fato de ter ou não um animal.
"Assim como nas relações humanas, ter um parceiro não garante resultados positivos — o que importa é a qualidade do vínculo”, explica.
Isso envolve escolher o tipo de animal mais adequado, seja por raça, espécie ou perfil individual. Embora cães e gatos sejam os mais estudados, também há pesquisas sobre peixes, porquinhos-da-índia, cavalos e até insetos como animais de estimação.
Na escolha, Mueller recomenda considerar estilo de vida, pessoas da casa, custos, disponibilidade, objetivos pessoais e tempo para cuidados.
“Se você gosta de caminhar na natureza, um cão mais ativo pode ser ideal” (como border collie, boxer ou jack russell terrier), sugere. “Mas se prefere ficar mais em casa, um cão calmo, um gato ou um pequeno animal como um porquinho-da-índia pode ser mais adequado.”
Independentemente da escolha, especialistas reforçam que os benefícios vêm do envolvimento. “Para aproveitar ao máximo um animal de estimação, é preciso passar tempo com ele e participar ativamente de atividades que ambos apreciem”, orienta a especialista.