IA na Aula
Ana Pereira
Ana Pereira
| 15-05-2026
Equipe de Astronomia · Equipe de Astronomia
Ignorar a presença da inteligência artificial no ensino superior já não é uma opção. Reitores e professores chegaram a um consenso: tentar proibir totalmente ferramentas como ChatGPT ou Gemini não funciona.
O desafio agora é outro — garantir que essas tecnologias contribuam para o aprendizado sem comprometer a formação dos estudantes ou distorcer avaliações.
IA na Aula

Diretrizes nacionais em construção

O Conselho Nacional de Educação (CNE) discute a criação de regras gerais para o uso de IA em instituições públicas e privadas, abrangendo todos os níveis de ensino. O documento ainda está em fase final e aguarda contribuições do Ministério da Educação (MEC). A expectativa é que seja votado em breve e, depois, aberto à consulta pública.
Enquanto isso, universidades brasileiras decidiram agir por conta própria, criando guias com orientações claras sobre o uso da tecnologia no ambiente acadêmico.

O que pode e o que não pode

A Universidade Estadual Paulista (Unesp), por exemplo, organizou recomendações divididas em três categorias:
- uso permitido
Ferramentas de IA podem ser usadas para traduzir textos, resumir conteúdos, revisar gramática, criar roteiros e até desenvolver materiais como apresentações e mapas mentais. Também são úteis para gerar imagens e apoiar pesquisas, desde que haja revisão cuidadosa;
- uso proibido
Não é permitido entregar trabalhos feitos por IA como se fossem próprios, nem utilizar a tecnologia em provas sem autorização. Plágio, uso de referências falsas ou compartilhamento de dados confidenciais também entram na lista de proibições;
- uso condicionado
Algumas situações dependem da orientação do professor, como o uso parcial da IA em trabalhos ou atividades em grupo.
Segundo o professor Denis Salvadeo, da Unesp, a ferramenta deve ser vista como apoio: “Ela pode ajudar na revisão ou na busca por referências, mas não substituir o aluno na construção do conhecimento”;

Transparência como regra

Na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), as diretrizes para a pós-graduação reforçam a necessidade de clareza. Sempre que a IA for utilizada, isso deve ser informado no trabalho.
“O autor precisa indicar onde e como usou a ferramenta. Cabe aos avaliadores julgar se esse uso foi adequado”, explica o professor Luiz Leduíno de Salles Neto.
A Universidade Federal da Bahia (UFBA) segue a mesma linha. Em seu guia, recomenda que os estudantes detalhem qual ferramenta utilizaram, quais comandos foram dados e quais respostas receberam.
Para o professor Adriano Peixoto, esse processo é essencial: “Sem reflexão, o aluno apenas entrega um resultado pronto, mas não desenvolve habilidades importantes como análise e síntese”

IA como aliada, não substituta

De forma geral, as universidades defendem que a inteligência artificial funcione como uma assistente — nunca como protagonista.
Pesquisadores alertam que aceitar respostas automaticamente, sem senso crítico, é um dos maiores riscos. Márcia Azevedo Coelho, da USP, destaca que essas ferramentas não são neutras: “Elas refletem visões de mundo e precisam ser usadas com consciência”.
Ela reforça que o papel do estudante é insubstituível: pensar, interpretar e contribuir com ideias próprias.

Como fiscalizar o uso?

Algumas instituições, como a Universidade Federal do Ceará (UFC), adotaram ferramentas para detectar o uso de IA em textos acadêmicos. Ainda assim, especialistas alertam que esses sistemas não são totalmente confiáveis e podem gerar erros.
Casos mais fáceis de identificar incluem plágio direto ou uso de referências inexistentes, algo que pode ocorrer com ferramentas de IA.
Para o pesquisador Tadeu da Ponte, o melhor caminho é investir em transparência: “Não existem métodos infalíveis. O ideal é construir uma relação ética entre alunos e professores”.

Mais do que regras, uma mudança de cultura

Criar normas é importante, mas não suficiente. Especialistas defendem que é preciso repensar a forma como a tecnologia é vista no ensino.
“Não faz sentido tratar o uso da IA como preguiça. Ela pode ser uma aliada poderosa”, afirma Tadeu da Ponte, comparando a situação ao uso de aplicativos de navegação: hoje, ninguém espera que alguém use mapas impressos em vez de ferramentas digitais.
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Novas formas de aprender e avaliar

O avanço da IA também exige mudanças nas formas de avaliação. Provas presenciais, apresentações e atividades práticas ganham mais importância.
Uma das sugestões é usar a própria tecnologia em exercícios simulados. Em cursos como jornalismo, por exemplo, estudantes podem interagir com um “entrevistado virtual” e ser avaliados pela qualidade das perguntas e da análise das respostas.
Esse tipo de abordagem, além de mais dinâmica, permite avaliações mais completas e alinhadas às exigências do mercado.

O futuro já começou

A presença da inteligência artificial no ensino superior não é mais uma tendência distante — é uma realidade. O desafio agora é encontrar o equilíbrio entre inovação e responsabilidade, garantindo que a tecnologia fortaleça, e não substitua, o aprendizado humano.