Avanços no câncer
Gustavo Rodrigues
Gustavo Rodrigues
| 29-06-2026
Equipe de Estilo de Vida · Equipe de Estilo de Vida
A luta contra o câncer acaba de ganhar novos capítulos promissores.
Durante a edição de 2026 do maior congresso de oncologia do mundo, a reunião anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO), especialistas apresentaram resultados que podem mudar a forma como diferentes tipos de tumores são diagnosticados e tratados.
Entre os destaques estão um medicamento que ampliou significativamente a sobrevida em câncer de pâncreas, avanços em câncer de pulmão, novas evidências envolvendo medicamentos para perda de peso e progressos na chamada biópsia líquida.

Medicamento para câncer de pâncreas surpreende especialistas

Nova terapia dobrou a sobrevida dos pacientes
O estudo mais comentado do congresso envolveu o daraxonrasibe, uma terapia-alvo desenvolvida para tratar câncer de pâncreas avançado.
Os resultados chamaram a atenção da comunidade médica: pacientes que receberam o medicamento viveram, em média, pouco mais de 13 meses, enquanto aqueles submetidos apenas ao tratamento convencional tiveram sobrevida próxima de seis meses.
O avanço é considerado histórico para um dos tumores mais agressivos e difíceis de tratar. O diferencial da droga está em sua capacidade de atuar sobre diferentes mutações da proteína RAS, presente em mais de 90% dos casos de câncer de pâncreas. Até hoje, essa proteína representava um dos maiores desafios da oncologia.
O impacto foi tão grande que a apresentação recebeu aplausos de pé dos participantes do congresso, algo raro em eventos científicos.

Canetas para emagrecer podem ajudar contra metástases

Resultados indicam redução do risco de progressão da doença
Outro trabalho que despertou enorme interesse analisou dados de mais de 12 mil pessoas com cânceres associados à obesidade, como os de mama, pulmão, intestino e fígado. Os pesquisadores compararam pacientes que utilizavam medicamentos agonistas de GLP-1 — conhecidos popularmente como canetas emagrecedoras — com outros que recebiam tratamentos diferentes para diabetes.
A análise mostrou que os usuários das canetas apresentaram menor incidência de metástases. No câncer de pulmão, o risco caiu cerca de 50%. Já nos tumores de mama, fígado e intestino, as reduções observadas foram de 43%, 38% e 31%, respectivamente.
Apesar dos números animadores, os cientistas ressaltam que ainda não é possível afirmar que os medicamentos sejam responsáveis diretamente pelo benefício. Novos estudos serão necessários para entender os mecanismos envolvidos.
Avanços no câncer

Novos tratamentos impulsionam avanços no câncer de pulmão

Terapias personalizadas apresentam resultados inéditos
O câncer de pulmão continua sendo um dos principais focos da pesquisa oncológica. Dois estudos apresentados na ASCO reforçaram a tendência de tratamentos cada vez mais direcionados às características genéticas dos tumores.
Um deles avaliou o selpercatinibe em pacientes com alterações no gene RET. Entre os participantes tratados com a terapia, 94% permaneceram livres de progressão da doença, recidiva ou morte, contra 70% no grupo placebo.
Outro destaque foi o lorlatinibe, utilizado em pacientes com câncer de pulmão ALK-positivo já metastático. Após sete anos de acompanhamento, 55% dos pacientes tratados continuavam com a doença controlada. No grupo que recebeu outro medicamento, esse índice foi de apenas 3%. O resultado é considerado um marco para a oncologia.

Menos tratamentos agressivos para câncer de mama

Estudos apontam caminhos para evitar procedimentos desnecessários
Pesquisas recentes reforçam uma mudança importante no tratamento do câncer de mama: nem todas as pacientes precisam passar por terapias mais intensas.
O estudo Optima avaliou um teste genético capaz de identificar quais mulheres realmente se beneficiam da quimioterapia. Mais de quatro mil pacientes participaram da pesquisa. Os resultados mostraram que mulheres classificadas como de baixo risco genético tiveram taxas de sobrevivência semelhantes mesmo sem realizar quimioterapia, recebendo apenas tratamento hormonal.
Outro trabalho acompanhou cerca de duas mil mulheres com comprometimento dos linfonodos sentinela. Tradicionalmente, esses casos exigem cirurgia para retirada dos nódulos afetados, procedimento que pode causar limitações permanentes nos movimentos do braço. Após cinco anos de acompanhamento, não houve diferença nas taxas de mortalidade entre as pacientes que passaram ou não pela cirurgia.
Avanços no câncer

Biópsia líquida avança, mas ainda enfrenta desafios

Exames de sangue podem revolucionar o diagnóstico
A biópsia líquida, técnica que busca sinais do câncer por meio de exames de sangue, também ganhou espaço nas apresentações do congresso. Um dos estudos mais aguardados avaliou um teste desenvolvido para detectar dezenas de tipos de câncer antes mesmo do aparecimento dos sintomas.
Embora os resultados iniciais não tenham conseguido reduzir significativamente os diagnósticos tardios, os pesquisadores observaram que a tecnologia consegue identificar sinais da doença com uma sensibilidade próxima de 60%, um índice considerado promissor para estratégias de rastreamento populacional.
Outros trabalhos trouxeram resultados mais positivos. Em pacientes operados por câncer de intestino, a presença de DNA tumoral circulante no sangue permitiu identificar indivíduos com alto risco de recidiva. Nesses casos, a quimioterapia ajudou a reduzir a chance de retorno da doença.
Além disso, estudos mostraram que a biópsia líquida pode detectar sinais de resposta ao tratamento ou progressão do câncer meses antes dos exames de imagem tradicionais. Apesar do potencial, especialistas afirmam que ainda são necessárias mais pesquisas antes que a tecnologia se torne rotina na prática médica.