Favela além dos estigmas
André Costa
André Costa
| 15-07-2026
Equipe de Viagens · Equipe de Viagens
Durante muito tempo, visitar uma favela no Rio de Janeiro foi visto por muitos turistas como uma oportunidade de conhecer de perto um cenário marcado pela violência e pelo crime.
No entanto, iniciativas lideradas pelos próprios moradores vêm transformando essa experiência em uma oportunidade de aprendizado, troca cultural e desenvolvimento comunitário.
Quase 17 anos após sua primeira visita a uma favela, o autor relembra uma experiência marcada por três lembranças: tiros, fogos de artifício e ruas onde os visitantes eram proibidos de entrar.
Na época, a realidade das guerras entre facções parecia distante para muitos viajantes europeus, que conheciam esse universo principalmente por filmes como Cidade de Deus, dirigido por Fernando Meirelles e Kátia Lund.
Em vez de despertar reflexão, essas produções frequentemente alimentavam a curiosidade de turistas interessados em visitar comunidades apenas para observar um cotidiano difícil.

Quando o turismo reforça estereótipos

Durante muitos anos, diversos passeios pelas favelas foram conduzidos por pessoas de fora das comunidades, apresentando apenas os aspectos mais negativos desses locais.
O autor descreve sua primeira visita como uma espécie de "safári humano", em que as histórias giravam exclusivamente em torno da violência. Não havia espaço para conhecer os moradores, compreender sua realidade ou criar qualquer tipo de conexão humana.
Na época, conceitos como turismo responsável e ético ainda eram pouco conhecidos por ele. Aos 21 anos, não imaginava que suas escolhas como viajante poderiam impactar diretamente as comunidades visitadas.
Com o passar dos anos, aquela experiência passou a incomodá-lo cada vez mais. A percepção de que estava ajudando a alimentar estereótipos negativos fez com que revisse sua maneira de viajar.
Favela além dos estigmas

Um novo olhar sobre a Favela do Vidigal

Em 2018, durante uma nova viagem ao Rio de Janeiro, surgiu a oportunidade de conhecer a Favela do Vidigal por meio de uma proposta completamente diferente.
O passeio foi organizado pela Favela Experience, com apoio da Planeterra Foundation e da G Adventures. O projeto nasceu com o objetivo de fortalecer iniciativas locais, criar oportunidades para moradores e transformar o turismo em uma atividade conduzida pela própria comunidade.
Mais do que mostrar a favela aos visitantes, a proposta é permitir que seus moradores contem suas próprias histórias, livres dos preconceitos normalmente associados a esses territórios.

Favela do Vidigal

Histórias contadas por quem vive na comunidade

O guia da visita era Russo, conhecido desde a infância pelo apelido de "Russo" por causa da pele clara.
Morador do Vidigal durante toda a vida, ele percebeu que muitas excursões eram realizadas por pessoas que sequer pertenciam à comunidade.
"Eu via pessoas conduzindo passeios pela minha comunidade, pessoas que não eram daqui. Pensei que, se elas podiam fazer isso, eu também podia."
Foi exatamente isso que aconteceu.
Há anos Russo conduz visitantes pelas ruas do Vidigal e se tornou uma figura bastante conhecida entre os moradores. Durante todo o percurso, era cumprimentado por comerciantes, vizinhos e grupos de amigos.
Em nenhum momento havia desconfiança sobre a presença dos turistas, mas sim a satisfação de ver a comunidade sendo apresentada por alguém que realmente faz parte dela.

Música como oportunidade para os jovens

A primeira parada aconteceu em uma quadra de concreto colorida, utilizada tanto para partidas de futebol quanto para os ensaios do grupo de percussão Batuca Vidi.
O projeto é coordenado por uma jovem que superou diversas dificuldades e se tornou uma importante liderança comunitária.
Por meio da música, o Batuca Vidi procura ensinar disciplina, dedicação e trabalho em equipe para crianças e adolescentes, oferecendo alternativas para que não sejam atraídos pelas organizações criminosas que atuam em regiões marcadas pela pobreza.
Durante a visita, as crianças apresentaram diferentes ritmos de samba enquanto um cachorro de rua, já considerado o mascote do grupo, acompanhava os ensaios com alguns latidos.
Depois da apresentação, integrantes do projeto ensinaram aos visitantes noções básicas de percussão. Alguns adolescentes observavam a atividade da porta, despertando a esperança de que também se interessassem em participar futuramente.

Natureza e transformação no Vidigal

Seguindo pelas ruas da comunidade, Russo compartilhou histórias da infância, mostrou a antiga casa onde viveu e apresentou lugares importantes de sua trajetória.
A caminhada continuou até o Parque Ecológico Sitiê, um espaço criado pelos próprios moradores após a retirada de cerca de cinco toneladas de lixo da área.
Embora seja um parque relativamente simples, o local simboliza uma mudança importante para a comunidade. Cercado por construções de tijolos aparentes, concreto e chapas metálicas, o espaço verde representa a busca por qualidade de vida e desenvolvimento além da infraestrutura urbana.
Favela além dos estigmas

Capoeira e empreendedorismo local

Outra parada foi o Vidigal Capoeira, organização comunitária fundada oito anos antes da visita.
Ali, crianças e jovens aprendem capoeira, expressão cultural afro-brasileira que combina arte marcial, música, dança e tradição.
Assim como outros projetos da comunidade, a iniciativa mostra como o turismo pode gerar benefícios sociais e econômicos quando desenvolvido de maneira responsável.
O passeio terminou na Vidigal Beer, primeira microcervejaria instalada na favela, administrada por Luciano e sua esposa, Nilda.
Com apoio da Planeterra Foundation, o casal transformou a paixão pela produção artesanal de cerveja em um negócio sustentável, capaz de gerar renda e novas perspectivas para a família.
Enquanto degustavam as cervejas produzidas no local, os visitantes contemplavam uma vista privilegiada da Praia de Ipanema e de boa parte da cidade do Rio de Janeiro.

Turismo responsável pode fazer diferença

Os desafios enfrentados pelos moradores do Vidigal e de muitas outras favelas do Rio de Janeiro continuam sendo enormes. Em diversos indicadores sociais, a situação pouco mudou ou até se agravou ao longo dos últimos anos.
Ignorar essas dificuldades ou romantizar essa realidade não contribui para resolver problemas estruturais que afetam essas comunidades.
Ao mesmo tempo, experiências como a do Vidigal mostram que o turismo responsável pode gerar oportunidades reais quando coloca os moradores no centro da atividade, valoriza seus projetos e fortalece iniciativas locais.
A principal lição deixada pela visita é que apoiar pessoas como Luciano, Russo e tantos outros agentes de transformação pode ajudar a construir mudanças concretas. Cabe também aos visitantes escolher experiências que respeitem as comunidades e contribuam para seu desenvolvimento.