Jogo desigual
Thiago Lima
Thiago Lima
| 14-08-2026
Equipe de Esportes · Equipe de Esportes
A nova temporada de Ted Lasso coloca o futebol feminino no centro da história e abre espaço para uma discussão que vai muito além dos gramados.
A série aborda como décadas de exclusão institucional ajudaram a criar desigualdades que ainda afetam investimentos, público, estrutura e reconhecimento das atletas.

Cinquenta anos de proibição

Na Inglaterra, mulheres foram impedidas de utilizar campos ligados à Football Association entre 1921 e 1971. Foram cinco décadas em que uma das principais instituições do futebol inglês restringiu o acesso feminino à infraestrutura necessária para que o esporte pudesse crescer.
A medida não significava que mulheres não praticassem futebol. Antes da proibição, o esporte feminino já havia conquistado popularidade e atraído grandes públicos. Algumas partidas chegaram a reunir dezenas de milhares de espectadores, mostrando que havia interesse pelo futebol praticado por mulheres.
Em 1921, porém, a Football Association declarou que o futebol era inadequado para mulheres e proibiu os clubes afiliados de disponibilizarem seus campos para partidas femininas. Árbitros ligados à entidade também ficaram proibidos de trabalhar nesses jogos.
A exclusão não precisava impedir uma mulher de tocar na bola para dificultar sua participação no esporte. Sem estádios, clubes, competições, investimentos e oportunidades de desenvolvimento para as atletas, o futebol feminino perdeu estruturas fundamentais para crescer de maneira contínua.
Jogo desigual

O caso brasileiro

No Brasil, a exclusão teve participação direta do Estado. Em 1941, durante o governo de Getúlio Vargas, um decreto determinou que mulheres não poderiam praticar esportes considerados incompatíveis com as chamadas “condições de sua natureza”.
Em 1965, o Conselho Nacional de Desportos incluiu expressamente o futebol entre as modalidades proibidas para mulheres. A restrição só foi retirada em 1979, enquanto a regulamentação do futebol feminino veio em 1983.
Foram quase quatro décadas de restrições oficiais
Durante esse período, o país que transformou o futebol em um dos principais símbolos de sua identidade nacional manteve as mulheres afastadas oficialmente da modalidade. Depois, esperava-se que elas recuperassem rapidamente um espaço que havia sido negado durante gerações.

Oportunidade faz diferença

Nos Estados Unidos, a exclusão ocorreu de outra maneira. Em vez de uma proibição nacional semelhante à brasileira, mulheres enfrentaram dificuldades para ter acesso a equipes escolares, treinadores, campos, competições e bolsas universitárias.
Uma mudança importante começou em 1972, com o Title IX, legislação que proibiu a discriminação sexual em programas educacionais financiados pelo governo federal e ajudou a criar uma base mais sólida para o esporte feminino.
A primeira seleção oficial dos Estados Unidos foi formada em 1985. Seis anos depois, o país conquistou a primeira Copa do Mundo Feminina. A diferença, portanto, não estava em uma suposta capacidade natural das jogadoras, mas nas oportunidades disponíveis para elas.

O público existe

A quarta temporada de Ted Lasso mostra, já no primeiro episódio, que muitos desses desafios continuam presentes. A nova equipe enfrenta pouco investimento, dificuldade para atrair público e a necessidade constante de demonstrar que pode ser comercialmente viável.
Esse cenário ajuda a revelar um ciclo difícil de romper. O futebol feminino recebe menos divulgação, regularidade e infraestrutura. Como consequência, pode atrair menos público, e essa audiência menor passa a ser usada como justificativa para novos investimentos insuficientes.
Exige-se resultado comercial antes de oferecer as condições necessárias para produzi-lo.
Na Inglaterra, grandes partidas e jogos da seleção já demonstraram que existe público interessado. O desafio é transformar o entusiasmo provocado pelas finais em um hábito semanal. No Brasil, ainda é comum encontrar partidas transmitidas pela televisão diante de arquibancadas quase vazias. As transmissões representam um avanço importante, mas, sozinhas, não resolvem o problema.
O público do futebol masculino foi construído ao longo de gerações por meio de campeonatos contínuos, programas diários, ídolos, rivalidades e histórias compartilhadas pelas famílias. Ninguém nasce sabendo a escalação do próprio clube. Esse conhecimento é adquirido porque a narrativa do futebol está presente desde a infância.

Uma história ainda em construção

O futebol feminino, por outro lado, ainda é apresentado muitas vezes como se estivesse começando. Horários e locais de partidas mudam, calendários são interrompidos e jogadoras importantes permanecem desconhecidas por grande parte do público. Ao mesmo tempo, existe a expectativa de que o interesse apareça espontaneamente.
Também existe o preconceito contra o futebol feminino. Parte do público compara a força e a velocidade das mulheres diretamente às dos homens e, a partir disso, considera a modalidade inferior. No entanto, ninguém exige que uma partida das divisões inferiores masculinas tenha o mesmo nível de uma competição de elite para receber torcedores, investimento e transmissão.
As mulheres acabam sendo comparadas justamente à versão mais rica e consolidada do esporte. Durante décadas, os estádios e o domínio das regras também funcionaram como espaços de afirmação masculina.
Quando jogadoras, treinadoras, árbitras, narradoras, comentaristas e torcedoras ocupam esses ambientes, algumas pessoas reagem como se elas estivessem entrando em um território que não lhes pertence. Essa percepção foi reforçada por décadas de exclusão.
Jogo desigual

Muito mais que um jogo

É nesse contexto que a nova fase de Ted Lasso pode ganhar importância. A série já utilizou o futebol para abordar masculinidade, saúde mental, liderança, relações de poder e pertencimento. Ao colocar Ted diante de uma equipe feminina, a produção não está apenas substituindo jogadores por jogadoras.
A história também entra em contato com um passado marcado por proibições, apagamentos e desigualdade institucional. A cultura pop não substitui investimentos, calendários, salários ou centros de treinamento. Ainda assim, pode oferecer rostos, conflitos, relações e histórias capazes de aproximar um universo que muitas pessoas ainda observam de longe.
A nova temporada parte justamente da necessidade de reconhecer que as mulheres não chegaram tarde ao futebol. Elas ainda estão tentando recuperar o tempo, os espaços e a história que lhes foram negados.
A menos de um ano da Copa do Mundo Feminina de 2027, que será realizada pela primeira vez no Brasil e na América do Sul, Ted Lasso chega a um momento especialmente relevante para essa discussão. Talvez transformar o jogo também exija mudar a maneira como essa história é contada.