Serra do Mar em voo
Fernanda Rocha
Fernanda Rocha
| 17-08-2026
Equipe de Viagens · Equipe de Viagens
Pela primeira vez na vida, desci para o litoral de São Paulo sem colocar os pés na areia.
De Ubatuba a Ilhabela, passando por Caraguatatuba, deixei as praias de lado para conhecer a Serra do Mar e seus refúgios de mata atlântica muito bem preservados.
A viagem tinha como principal objetivo observar aves. A Mata Atlântica abriga algumas das espécies mais coloridas e raras do planeta, e o começo do inverno é uma das melhores épocas para encontrá-las. No caminho, porém, também surgiram macacos, cobras, sapos e borboletas, além de pessoas que dedicam a vida à floresta.

Um paraíso para observar aves

O Parque Estadual da Serra do Mar ocupa mais de 322 mil hectares e atravessa o estado de São Paulo de norte a sul, dividido em dez núcleos.
Entre toda a Mata Atlântica brasileira, que se estende por 17 estados, o litoral norte de São Paulo e o litoral sul do Rio de Janeiro estão entre as áreas com maior concentração de espécies de aves, com aproximadamente 130 espécies endêmicas, ou seja, que não existem em nenhum outro lugar.
Para quem percorre a rodovia Tamoios (SP-099), o verde intenso da floresta aparece no Núcleo Caraguatatuba, cuja entrada é permitida somente mediante agendamento. Caminhar por suas trilhas tranquilas é entrar em um mundo completamente diferente do movimento das praias da região, embora a entrada do parque esteja a apenas 6 km do mar.
Uma área especial para a avifauna
“O Núcleo Caraguatatuba se destaca não apenas por estar bem no olho desse furacão de aves”, afirma o ornitólogo Luciano Lima, guia da Brazil Birding Experts. “Ele também abriga ambientes muito bem preservados ao longo de todo o gradiente altitudinal.
Em poucos quilômetros, você sai da base da serra e sobe até cerca de mil metros, reunindo em um espaço pequeno uma sequência de ambientes muito distintos, cada um com sua própria comunidade de aves.”
Logo na entrada do parque, um comedouro com bananas atrai uma verdadeira procissão de saíras de diferentes cores, acompanhadas por um chamativo pica-pau-de-cabeça-amarela. Nas proximidades, também foi possível observar uma família de macacos-prego-de-topete se alimentando nas árvores.
O parque ainda guarda exemplares centenários de pau-rosa, uma das maiores árvores da Mata Atlântica, além de delicadas palmeiras-juçara, que são alvo constante da extração ilegal de palmito. O símbolo do parque é a onça-pintada, animal que o gestor da unidade, o engenheiro ambiental Miguel Nema, viu apenas uma vez, em um vídeo registrado por uma armadilha fotográfica. Ele trabalha no parque há quase 18 anos.
Serra do Mar em voo

Trilha exclusiva para observadores

Nema acompanhou o grupo pela Rota das Aves, uma trilha de um quilômetro, de acesso fácil e destinada exclusivamente à observação de pássaros. É necessário fazer um cadastro prévio pela internet.
Com um instrumento metálico retirado do bolso, uma espécie de apito chamado “pio”, Nema conseguiu reproduzir diferentes sons da floresta. Um deles imitava o canto de uma saíra, pequena ave de cabeça cinza e corpo alaranjado, que respondeu imediatamente ao chamado.
“É uma ferramenta muito usada por caçadores e que foi apreendida durante uma das operações de fiscalização do parque”, explicou Nema, que também é músico amador. “O que antes era usado para dizimar nossa fauna, hoje eu uso para o bem por meio da observação de aves como ferramenta de educação ambiental.”
Durante uma caminhada noturna, apareceu uma coruja-do-mato-de-barriga-amarela, uma ave de grande porte e canto grave, considerado até assustador. Nema também contou que já foram registrados no local avistamentos do muriqui-do-sul, o maior primata das Américas e uma espécie ameaçada de extinção.

Serra do Mar

Raridades em Ilhabela

Em Ilhabela, a chegada aconteceu à noite, e logo pela manhã a caminhada de volta à mata começou. A intenção era encontrar as jacutingas, aves ameaçadas de extinção, na Trilha do Pico do Baepi, mas não houve sorte.
A recompensa veio na Trilha do Bananal, onde apareceram espécies raras. A maior surpresa, porém, não tinha penas. Era uma pequena lata cheia de minhocas carregada pelo guia local Fernando Moraes, conhecido por sua habilidade em localizar aves.
Moraes passou dois anos tentando atrair o sanã-carijó, uma ave elegante e discreta considerada um fantasma da floresta. “A gente ouve muito, mas como ele vive em ambiente alagado e com vegetação fechada, é muito difícil de ver”, conta Moraes, que hoje praticamente faz o animal comer em sua mão.
Ele chama o sanã-carijó pelo nome que inventou: “Vem cá, Dedé, tem comida”, dizia enquanto jogava minhocas em uma clareira da trilha. “Eu o encontrei em 2020 e continuei tentando me aproximar. Teve vezes em que saí daqui chorando. Mas sabia que, se desse certo, eu estava feito.”
O crescimento do birdwatching
Moraes passou de pouco mais de dez clientes por ano para mais de cem, incluindo muitos estrangeiros. Ele também consegue chamar para perto outras aves difíceis de observar, como o choquinha-de-garganta-pintada, o juruva-de-coroa-preta e o chupa-dente, além de conhecer a localização do ninho de uma águia-coroada.
O turismo de Ilhabela tem apostado cada vez mais na observação de aves, atividade que movimenta US$ 279 bilhões, cerca de R$ 1,5 trilhão, apenas nos Estados Unidos, considerando viagens e compras de equipamentos, segundo dados do governo americano. A Semana das Aves de Ilhabela acontece desde 2019. A próxima edição está marcada para os dias 21 a 27 de setembro.
Apesar de ficar longe do mar, a região não deixa de oferecer rios e cachoeiras ao longo das trilhas. Em Ilhabela, é possível combinar um banho em uma piscina natural com a observação de aves na Cachoeira da Toca. Logo na entrada, um “enxame” de cambacicas domina os comedouros destinados aos beija-flores.
O local também abriga a última destilaria de cachaça ainda ativa em Ilhabela. No passado, a ilha chegou a ter mais de 30 engenhos. Há degustações no local, com destaque para a cachaça envelhecida em barris de jequitibá-rosa.

O santuário dos beija-flores

Em Ubatuba, as estrelas são os beija-flores que frequentam os numerosos comedouros de Jonas D’Abronzo, técnico em eletrônica aposentado que criou um santuário para as aves dentro de sua própria propriedade, o Sítio Folha Seca.
O sítio fica aos pés da Serra do Mar, ao lado do Núcleo Picinguaba do parque estadual e a menos de quatro quilômetros da praia. Não há cobrança de entrada, mas é costume que os visitantes levem açúcar e frutas para ajudar na alimentação das aves. O acesso pela estrada é difícil, e D’Abronzo pede que os interessados avisem com antecedência.
“Gosto que observadores e amantes da natureza venham, e tenho medo de atrair curiosos que chegam da praia de chinelo, sem os devidos cuidados”, afirma D’Abronzo. “Aqui é a borda da mata e, principalmente nos períodos mais quentes, há cobras.”
O local já registrou 22 espécies de beija-flores, entre residentes e migratórias. Durante a visita, foi possível observar de perto o beija-flor-de-peito-azul, o beija-flor-de-topete-verde e o beija-flor-de-garganta-rubi. Outras 30 espécies de aves também aparecem para se alimentar das frutas, entre elas a saíra-sapucaia e a saíra-sete-cores.

Hospedagem em meio à mata

Para quem deseja dormir e acordar ao som dos beija-flores, a pousada Ninho de Cambacica fica nas montanhas de Ubatuba, a 6 km da praia. São apenas três quartos, mas o espaço conta com vários comedouros e uma trilha de aproximadamente 400 metros.
O local foi criado por um casal de biólogos que organiza workshops de fotografia de aves. Os próximos estão previstos para o fim de julho e para outubro. Com a chegada do inverno, os comedouros ficam movimentados. “É a melhor época, fica muito cheio”, diz a proprietária Aline Alegria Marinelli. “Chegam espécies migratórias, como a saíra-azul, a saíra-preta e a saíra-de-garganta-branca. Continua muito bom até o fim da primavera.”
Serra do Mar em voo

Nas alturas da Serra do Mar

Subindo a serra, a viagem se afastou ainda mais do mar. A parada seguinte foi o Núcleo Cunha do parque estadual, em busca de espécies que vivem em áreas de altitude elevada e sob neblina constante. A chuva persistente não ajudou na observação, e o percurso seguiu até a última parada, o Macuquinho Lodge, em Salesópolis, a 115 km de São Paulo.
Era a segunda visita à pousada, mas a hospitalidade dos proprietários, o casal Elvis Japão e Nanda de Fátima Souza de Jesus, fazia parecer um reencontro com velhos amigos. Enquanto ela cuidava das refeições dos hóspedes, que podem comer com vista para o jardim dos beija-flores, ele ficava responsável pela alimentação das aves, usando comedouros cheios de frutas e três “hides”, estruturas para observar os animais escondido.
Em um deles, Elvis toca um pequeno sino para chamar o sanã-perna-vermelha, que logo aparece atrás da comida feita com larvas de farinha.
Foi a última experiência na Mata Atlântica antes do retorno à selva de concreto da capital.
Como chegar
Caraguatatuba
Parque Estadual da Serra do Mar – Núcleo Caraguatatuba.
Entrada somente com agendamento.
Hampton Hotel by Hilton Caraguatatuba Serramar
Diária a partir de R$ 379.
Telefone: +12 3885-1230.
Guia Fernando Moraes
WhatsApp: +12 98894-9636.
Instagram: @fernandobirdingilhabela.
Cachoeira da Toca
Horário de entrada: das 9h às 17h. Ingresso: R$ 40.
WhatsApp: +12 99793-3354.
Ubatuba
Pousada Ninho da Cambacica.
WhatsApp: +11 97168-8222.
Diária: R$ 800 para casal com pensão completa.
Sítio Folha Seca – Jonas D’Abronzo
Visita somente com agendamento: +12 99753-2587.
Cunha
Pousada São Miguel.
WhatsApp: +55 12 98109-0121.
Diária: R$ 680 para casal, por duas noites, em chalé com lareira.
Salesópolis
Macuquinho Lodge.
Instagram: @macuquinholodge.
WhatsApp: +11 94225-6794.
Diária: R$ 1.200 para casal com pensão completa.
Day-use: R$ 250 por pessoa, com almoço incluído, das 7h às 17h.