Japão e a arte de conviver
Carolina Santos
Carolina Santos
| 18-08-2026
Equipe de Viagens · Equipe de Viagens

Uma cultura que valoriza o coletivo

A cultura ocidental costuma colocar o indivíduo no centro, muitas vezes valorizando o ego acima de tudo. No Japão, a perspectiva é diferente: o ser humano é visto como apenas um dos elementos do cosmos, ao lado de montanhas, árvores e outros elementos da natureza, que também são venerados.
Foi com pouca bagagem e muita curiosidade que a escritora e psicanalista Betty Milan embarcou para o país do sol nascente. A viagem terminou com a descoberta de paisagens marcantes e de uma cultura que privilegia a vida coletiva e organiza os espaços públicos pensando no bem-estar de todos.

Silêncio e respeito nas ruas

Em Tóquio, o cuidado com o espaço compartilhado aparece em situações simples do cotidiano.
Nas ruas, quase não há lixo e o silêncio chama a atenção. Ao caminhar pela avenida principal de Ginza, Milan conta que o único barulho que ouviu foi o grito de uma criança.
Na estação central de Tóquio, cerca de dois milhões de pessoas circulam diariamente. O local conta com uma sala de espera, mas também é possível sentar no chão sem o risco de se sujar.
O cuidado também aparece no transporte. Quando o shinkansen, o famoso trem-bala japonês, chega à estação e os passageiros desembarcam, os vagões são limpos antes que o próximo grupo entre.
Durante a viagem, quase todos consultam o iPhone, mas ninguém fala ao celular.
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Gentileza com os estrangeiros

Além de respeitosos, os japoneses também demonstram disposição para ajudar visitantes estrangeiros.
Milan conta que, mais de uma vez, perguntou a desconhecidos se poderiam indicar o caminho para determinado lugar. Em vez de apenas dar uma orientação, eles a acompanharam pessoalmente até o destino.
Mesmo quando não compreendem bem o inglês, procuram ajudar da maneira que conseguem.
Para a escritora, esse comportamento talvez tenha relação com o budismo, que prega valores como equanimidade, sabedoria e compaixão.

Quando a natureza se torna sagrada

A religião autóctone do Japão é o xintoísmo, que diviniza a natureza por meio dos kami, espíritos sagrados que habitariam montanhas, rios e árvores.
Um dos exemplos mais expressivos dessa relação está em Nikko, cidade localizada a aproximadamente uma hora de Tóquio.
Ali, as montanhas são veneradas no complexo Nikko Zan, reconhecido pela importância histórica e pela beleza e declarado patrimônio da Unesco.

Nikko e seus templos históricos

Durante o período Edo, entre 1603 e 1868, o xogunato dominou o Japão. A intenção era transformar Nikko em uma capital capaz de rivalizar com Kyoto.
É possível que a escolha do local tenha sido influenciada pela floresta de cedros, que cria um cenário grandioso para o complexo formado pelo templo budista Rinno-ji, pelo santuário Futorasan, dedicado às três montanhas sagradas, e pelo Toshogu, construído por Ieyasu, o xogum responsável pela unificação do Japão.
O complexo foi fundado por Shodo Sonin, monge budista venerado pelos japoneses. Ele construiu o templo que posteriormente se tornou o Rinno-ji.
No local existem três enormes budas, associados às três montanhas de Nikko — ou, mais precisamente, aos três vulcões da região.
Em Nikko, budismo e xintoísmo convivem de maneira sincrética e pacífica.
A experiência pode levar o visitante a refletir sobre como seria o mundo se o xintoísmo fosse uma religião global e a natureza fosse cultuada em diferentes partes do planeta.

Os jardins que encantam

Nikko é apenas uma das muitas atrações do Japão. Outra experiência marcante é o Jardim Korakuen, um dos mais antigos de Tóquio, concluído em 1629.
O espaço funciona como um pequeno oásis, com lagos, colinas artificiais e pontes em miniatura.
Entre as paisagens do jardim, Milan encontrou árvores cujas folhas pareciam estrelas e chegou a se perguntar se estava no céu.

Kyoto e a história do Japão

Para quem deseja conhecer melhor a cultura japonesa, Kyoto oferece uma infinidade de possibilidades. A cidade foi capital do país até 1868, quando os xoguns, senhores feudais, perderam o poder para o imperador e teve início o período Meiji, que durou de 1868 a 1912.
Nesse período, o governo investiu em ferrovias e indústrias de base, criou um Exército e uma Marinha modernos e tornou universal a educação básica.
Sob o imperador Mutsuhito, o Japão deixou de ser uma nação isolada e fechada sobre si mesma e passou a se tornar uma potência moderna.
Kyoto reúne oito museus, além de inúmeros templos e jardins que se tornaram referências culturais e atraem visitantes do mundo inteiro.
A cidade também é considerada um dos grandes centros do zen-budismo, tradição pela qual Milan demonstrava especial interesse.

japão

O templo zen mais antigo

Kennin-ji, considerado o templo zen mais antigo de Kyoto, foi fundado em 1202 por Yousai, que havia estudado na China e levou o chá de lá para o Japão.
Conhecido pelas imagens do deus do vento e do deus do trovão, o templo também impressiona pelos seus jardins.
Em um deles, três pedras representam Buda e dois monges zen.
Outro espaço, conhecido como jardim seco, reúne apenas pedras e musgo, seguindo uma estética marcada pela simplicidade.
Ao entrar no templo, o visitante encontra a imagem de Bodidarma, monge do século 5º responsável por introduzir na China o budismo chan, tradição que deu origem ao budismo zen.
Bodidarma aparece com nariz proeminente, barba abundante e olhos encarquilhados. Sua expressão é raivosa, quase como se tivesse sido interrompido de maneira brusca durante uma meditação.
Mesmo com a presença de numerosos turistas japoneses e estrangeiros, o ambiente permanecia sereno. Milan conta que acabou se sentando para meditar.

Uma experiência no Saihoji

Outro templo zen que a escritora fez questão de conhecer foi o Saihoji. A visita precisou ser agendada com bastante antecedência e começava com uma prática espiritual budista: a cópia de sutras.
O visitante recebe uma folha para fazer a cópia, uma caneta de caligrafia e um texto com as instruções.
Primeiro, deve encontrar uma posição confortável, fechar os olhos e ouvir o silêncio para se acalmar. Depois, precisa respirar profundamente cinco vezes e só então começar a copiar os sutras, de cima para baixo e da direita para a esquerda.
Para Milan, iniciar a visita escrevendo ajudou a preparar o espírito para conhecer o singular jardim de musgo do templo.
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A simplicidade do jardim de musgo

O zen não valoriza o musgo por acaso. Ele é um elemento importante do que os japoneses chamam de wabi, uma estética associada à beleza do simples, do discreto e do silencioso.
A experiência fez Milan questionar se essa valorização da simplicidade teria relação com a influência do budismo zen, marcado pelo minimalismo.
A visita ao Saihoji deixou essa pergunta, mas também uma frase tranquilizadora encontrada no site do próprio templo: é preciso conhecer apenas o necessário.

Uma lição trazida na volta

Depois da viagem, uma certeza permaneceu: o Japão é uma referência na organização do espaço público.
Entre o respeito pelas pessoas, o cuidado com os ambientes compartilhados, a convivência entre budismo e xintoísmo e a reverência à natureza, a experiência revelou uma sociedade em que o coletivo ocupa um lugar central.
Para a escritora e psicanalista Betty Milan, membro da Academia Paulista de Letras, o país do sol nascente deixou muito mais do que lembranças de uma viagem: trouxe uma nova maneira de observar a relação entre pessoas, espaço e natureza.